
Vi essa semana "El Passado" de Hector Babenco.
A entrevista dele a respeito do filme havia me despertado a curiosidade, já que ele falou sobre uma certa discrepancia na reação de mulheres e homens ao filme.
Pelo menos na tal entrevista ele não falou detalhadamente a respeito, mas acredito que os homens devem ter entendido a angústia do protagonista em relação à como se desenvolve a relação com a ex-mulher, e palavras dele, se bem me lembro, "as mulheres acharam tudo normal".
Fui ver o filme preparada para lidar com conflitos bastantes sutis, de difícil percepção, o que explicaria as diferenças de olhar feminino e masculino.
Confesso que a princípio achei que era compreensível o apego da personagem, afinal foram vários anos de casamento, qual o problema sentir falta de um amigo?
Até o passeio com o carrinho de bebê me parecia encucação do personagem (e do cineasta...rsss) olhar pra ela com a sensação da música de suspense.
Achei que a tal música só estava na cabeça dos dois.
Mas o que se segue, é realmente o pior do apego emocional feminino, mas vale dizer, não só feminino.
Terminando o filme, fiquei questinando comigo mesma, e é claro que é um questionamento óbvio, o quanto o olhar de outras mulheres, e não a rejeição do homem
é o grande impulsionador de comportamentos assim.
O desfile dela com ele como objeto de desejo de outras, como se fosse um anel ou coisa assim, é daquelas cenas que ficam como referência no pensamento.
Mas não era o protagonista, também, daqueles homens-vênus, quase femininos, com extrema vontade de agradar e uma grande dificuldade de se colocar com vontade própria diante de uma mulher?
Pensando em casos assim, na obsessão de homens ou mulheres, há, é claro, um dominador e um objeto,e apesar de eu ter chamado mais acima de apego emocional, a verdade é que há muito mais orgulho que amor em jogo.
sábado, 10 de maio de 2008
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quinta-feira, 8 de maio de 2008
Um provisório ufa!...por Isabela.
Mas quando vemos as cenas de condenação pública, a voz interior.
"Que sejam realmente os culpados" como parece evidente.
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Marcadores: Isabella
Oposição em saia muito justa

Pegou muito mal o uso pelo senador Agripino Maia de uma entrevista da ministra Dilma Roussef sobre o fato de ter mentido quando foi presa pela ditadura.
A resposta indignada de Dilma foi primorosa.
Como se pode explicar tamanha falta de semancol do Senador?
Foi tão cruel que acabou por ser ingênuo
E a oposição, teve que lidar com o gol contra ....
Fiquei com Dilma.
Postado por Unknown às 05:24 0 comentários
Marcadores: brasil
Estamos emburrecendo com a internet e a informação por vídeo?
terça-feira, 6 de maio de 2008

Achei essas duas entrevistas, que li no Estado de São Paulo, interessantíssimas.
Mas tenho a dizer que:
Acho que o que há de mais evidente, é que a internet é um meio pelo qual cada vez mais todos participam, e massa, em qualquer tempo é massa. Nunca a massa teve tanta participação na mídia, é isso, é claro, causa a estranheza, como diz Lee Siegel.
Mas acho que ele exagera no mal humor.
Alguém já ouviu falar de uma grande massa num impulso de intelectualização?
A internet também evidencia o que há de mais cretino no ser humano, mas esse cretino sempre houve, só não era tão evidente, - e aí talvez a legitimidade da preocupação - tão venerado.
Hoje a informação transita pela internet em níveis diversos, e dependendo do seu tipo de curiosidade, vai ter a informação no nível que queira.
A cultura da ignorância é o que é, sim, de mais preocupante e condenável, porque sendo o indivíduo curioso, interessado em evoluir, todo o meio pode ser impulsionador, essa evolução sendo sempre deficitária se não atingir o nível de muita, muita leitura de boa qualidade.
Quanto à relações que acontecem somente num nível psíquico, acho mais interessante que problemático, vejo vantagens e desvantagens como em qualquer relação humana.
Mas é tudo tão recente que mesmo valendo a discussão, é de difícil reflexão.
Se estiver curioso, estão aqui as duas entrevistas e o endereço virtual de "O Estado de São paulo", logo abaixo.
A Ansiedade De Exposição
Na internet, você entra no YouTube, vira a câmera para si mesmo e perde a individualidade. Passa a se apresentar como um pacote público
Lúcia Guimarães* - O Estado de S.Paulo 2 de março de 2008
SÃO PAULO - Primeiro, uma confissão: venho me servindo do ensaísta e crítico cultural Lee Siegel há anos. Não, ele não vai me processar por assédio sexual. As idéias de Lee Siegel me socorreram quando algum fenômeno da cultura popular americana me colocava na contramão do gosto coletivo e me batia uma solidão danada em festas ou papos de bar. Em parte por causa dele me mantive assinante da revista The New Republic. E desconfiei que havia algo malcheiroso no incidente que levou-o a uma suspensão temporária desta publicação por ter assumido um pseudônimo para se defender de ataques de leitores sociopatas. Volto à celeuma já, já. Mas, no espírito da transparência editorial, foi na condição de tiete que, ao ver o novo livro de Siegel exposto na livraria, decidi procurá-lo ao terminar a primeira página do prefácio.
Afinal, se você aprecia o piano de Bill Evans como eu, já não é um primeiro estímulo para tomarmos um café juntos? Como não podia convidar um estranho para tomar café, recorri ao velho truque, um dos poucos privilégios que sobraram na nossa escorraçada profissão. O jeito era lançar a isca da entrevista. Marquei uma gravação lá em casa. A assessora de imprensa da nova editora Spiegel and Grau não questionou o endereço do compromisso, em meio a tantos que estava marcando para seu autor. "Vinte minutos, hein", ela confirmou. Concordei, é claro. Os 20 minutos duraram quase 3 horas, interrompidas por um telefonema convocando o entrevistado a ir correndo render a babá do filho de 18 meses.
No prefácio de Against the Machine, Being Human in the Age of the Electronic Mob, Siegel resume o que faz dele um personagem démodé do jornalismo contemporâneo: "As coisas não têm que ser como são".
No auge do baba-ovo geral com a série Sex & the City, em 2002, um ensaio solitário de Siegel, Relationshipism, na New Republic, chamou atenção para o fato de que as quatro mulheres usavam a própria independência para, entre outros comportamentos destrutivos, confundir sexo com afeto e submeter-se a humilhações sistemáticas. Siegel estava defendendo as mulheres delas mesmas.
Em 2006, Siegel assinava um blog cultural na New Republic quando a seção Talkback da revista começou a registrar comentários anônimos tais como "(?) Siegel colocou seu pênis sobre o altar", "Siegel quer foder uma criança". Indignado ao ver uma revista tradicional e respeitada se sujeitar a publicar esse tipo de linguagem, ele pediu aos editores para acatar as regras de decoro que eles próprios tinham criado para o conteúdo on line. Não foi ouvido. Criou então a identidade sprezzatura, o termo cunhado na Renascença para definir a simplicidade enganosa. Começou a atacar seus agressores no estilo deles e a defender seus artigos, numa pequena guerrilha de palavras. Mas acabou descoberto. A revista pediu desculpas, Siegel foi temporariamente suspenso e os colegas adoraram a oportunidade de ridicularizar a breve desgraça do obstinado remador contra a corrente. A ironia, ele lembra, é que, graças ao miniescândalo, teve a oferta para escrever Against the Machine, num rebote típico da sociedade americana.
O argumento central do livro é que a internet veio acelerar uma tendência cultural preexistente - o fato de que nunca na história o indivíduo foi tão elevado acima da sociedade, e satisfazer o próprio desejo tornou-se mais importante do que equilibrar os relacionamentos com o outros. "Nós vivemos dentro da nossa cabeça mais do que qualquer sociedade em qualquer outro momento e, para alguns, agora, a realidade só existe dentro da cabeça deles." Siegel não está condenando e sim apontando o fato de que a tecnologia é neutra e amoral. "A internet", diz, "não criou patologias de comportamento", mas as difundiu e acelerou, como a pedofilia, a violência pornográfica e o isolamento resultante de doença mental.
Ele convida o leitor a considerar o caso do automóvel, o ícone sagrado da prosperidade americana. No começo da década de 60, 50 mil americanos morriam anualmente nas estradas. Havia detalhes de engenharia específicos e conhecidos para alterar a fabricação, mas o carro como símbolo de status e individualismo era intocável. Até que foi publicado o clássico Unsafe at Any Speed (Inseguro a Qualquer Velocidade), de Ralph Nader, sobre a negligência criminosa da indústria de automóveis. O grande público ficou horrorizado, gradualmente os engenheiros passaram a ser ouvidos e milhares de mortes foram evitadas.
As coisas não tinham que ser como eram.
Siegel não sugere que a internet seja letal como o automóvel, é claro, mas compara as duas tecnologias pela sua recepção triunfal e acima da crítica. Ambas foram saudadas sob a retórica da liberdade e da democracia. Siegel lembra a famosa previsão de Lenin sobre o imperialismo como a fase final do capitalismo. Ele discorda: "A fase final do capitalismo, a fronteira sem fundos, é a exposição pública do universo privado, da psique. A privacidade virou performance. É uma transação pública. Against the Machine propõe uma moratória nas platitudes triunfalistas e um resgate da cultura adulta.
Primeiro vamos falar da impressão de que seu livro é "contra" a internet.
Claro que não é. Eu dependo da internet, assim que acabar esta entrevista vou para casa checar meu ranking nas vendas da Amazon. Eu me mantenho ligado no e-mail como se fosse um apêndice. Só acho que a tecnologia deve ser usada com cuidado. Ela deve amplificar nosso humanismo, não nos desumanizar.
Seu problema é com a maneira como o comércio se apropriou da internet?
Sim, desde o princípio. Na verdade, a internet começou como uma iniciativa militar e a comercialização foi imediata. E você pode ver as ramificações a toda hora. O Rupert Murdoch comprou o My Space. A Microsoft tenta comprar o Yahoo. O Google continua a criar todo tipo de estratégia para derrotar a Microsoft. E acho que, no nível pessoal, quando as pessoas entram na internet, com freqüência elas acabam se "empacotando". Não existe mais nada não intencional. Você entra no YouTube, vira a câmera para si mesmo e uma vez que está on camera você muda. A vida muda. Você passa a calcular, perde a espontaneidade, se torna autoconsciente e se apresenta como um pacote.
Uma crítica fácil de fazer a seu livro é que ele foi uma reação ao episódio do pseudônimo no blog, que lhe valeu a suspensão temporária da ?New Republic??
Há uma corrente forte para suprimir qualquer crítica à internet como coisa de reacionário. Eu já fazia críticas há anos, desde 2003, na New Republic, na Slate, no Los Angeles Times - sob meu próprio nome. Umas das coisas que primeiro me incomodaram foi o anonimato. Não podia acreditar que as pessoas pudessem entrar nos sites e, sob a proteção de um pseudônimo, fazer comentários abusivos e até difamar os outros à vontade. Isso me deixava maluco. Eu tinha meu próprio blog na New Republic e passei meses pedindo aos editores para não publicar a baixaria. Até que um assinante, usando pseudônimo, me chamou de pedófilo. "Basta", pensei. "Vou fazê-los provar um pouco do próprio remédio. Vou assumir uma identidade e mostrar como isso acontece." E todo mundo se apressou a me condenar. Foi uma forma de protesto. Acho que se você tem algo a dizer, diga no próprio nome.
Você usa a expressão ?blogofascismo? para definir um aspecto do fenômeno dos blogs. Mas eles foram um resultado natural de uma tecnologia disponível?
Claro, a internet trouxe cenários inevitáveis. Seu valor dominante é a conveniência. E a vida contemporânea, por ter se complicado, depende em grande parte da conveniência. Por isso eu e você adoramos a internet. Mas a conveniência, por si só, pode ser problemática. Se você levantar e sair da sala, posso achar conveniente tirar o dinheiro de sua carteira. Pode ser conveniente trair, roubar mentir ou matar. A internet facilitou muita coisa, mas não necessariamente o que deva ser conveniente. O que se vê na internet é algo novo. Não é cultura de massa no sentido de que é produzida para a massa por um número reduzido de agentes. É cultura produzida pela massa. Este é, a meu ver, o verdadeiro aparecimento da cultura da massa, pela primeira vez. Na cultura, chegamos à ditadura do proletariado que Marx queria ver na economia e felizmente não aconteceu. As vozes mais irresponsáveis, mais barulhentas e agressivas estão erodindo a autoridade do jornalismo tradicional. Quando todos têm o mesmo direito de falar, acaba a discordância. É o igualitarismo antidemocrático. Vivemos um clima de hostilidade ao mérito e ao talento que destaca certas pessoas. Acesso não tem nada a ver com democracia, é um grito de guerra do consumidor. Mas quem fala sobre isto é acusado de elitista.
Há um movimento, liderado pelo professor Lawrence Lessig, de Stanford, que cunhou o termo ?copyleft?. Ele não só condena o excesso de zelo na proteção de copyright como uma forma de engessar a criatividade, mas exalta a internet como a grande ferramenta democratizante.
O Lessig é um cara divertido. Tenho certeza de que é um advogado competente, mas quando começa a falar de cultura, fica engraçado. Ele começa com o papo da democratização e argumenta que você pode mandar um poema de amor para alguém, pode difundir seus hobbies para o mundo. Ele confunde o que a democracia permite - escrever um poema de amor, desfrutar da livre expressão - com o que permite a existência da democracia, um mecanismo político e não cultural.
No livro, você critica programas como o ?Daily Show?, do Jon Stewart, e ?Curb Your Enthusiasm? (com Larry David, criador do ?Seinfeld?) e toda uma tendência de filtrar a realidade por meio da ironia. Você não acha uma vantagem quando jovens que não prestariam atenção ao noticiário são informados por um cômico como o Stewart, que expõe as fraquezas do jornalismo e a hipocrisia do poder?
Primeiro, acho que essa tendência não fortalece a ironia e sim o sarcasmo. Houve uma grande mudança no humor, acelerada também pela internet. Antes, a piada clássica começava assim: "Dois sujeitos entram num bar?", e a piada continuava até a punch line. Agora a piada é: "Dois sujeitos entram num bar? e os dois são gordos!" E todo mundo cai na gargalhada. A internet produz rapidez, agilidade, malícia, crueldade, desrespeito a qualquer forma de autoridade. É isto que esses shows promovem, um prazer em testemunhar o ridículo - seja de Bush ou de um padre flagrado com a mão onde não devia.
Outra crítica importante do livro é sobre a diferença entre informação e conhecimento, uma distinção que está difícil de fazer em relação à web.
Eu tenho um filho de 1 ano e meio. Quando ele nasceu, minha mulher e eu ficamos acessando todo tipo de site médico associado a hospitais respeitados, queríamos nos tranqüilizar sobre cada novo momento. Esse tipo de recurso traz muito alívio. Mas a internet não dá refresco neste país, envia informação sem parar, 24 horas por dia. As histórias importantes se perdem, as questões importantes são relativizadas, tudo se confunde. Eu não preciso saber que alguém levou um tiro num estacionamento no Arizona. Mas eles vão me empurrar essa história e os psicólogos que aparecem e os comentários dos sociólogos e das testemunhas do crime - a coisa parece interminável até o momento em que salta para o próximo assunto - alguém fabricou uma camiseta no Texas que virou um sucesso no mundo todo! E não acaba nunca. É a praga da popularidade. A internet substituiu a cultura popular pela cultura da popularidade. O principal critério de sucesso na internet é popularidade. A cultura popular costumava atrair as pessoas para o que elas gostavam. A internet atrai as pessoas para o que os outros gostam. Então, na home page dos jornais americanos, agora você tem as listas "mais populares, mais enviados por e-mail, mais mencionados em blogs". É patético. E o que acontece com a reportagem sobre uma mulher negra idosa em Chicago, despejada de casa no meio do inverno? É claro que não vai ser popular nem sexy. Você vai ter que ler sobre a Britney Spears ou a Paris Hilton, e esse critério é devastador.
Confesso que, depois de mais de 20 anos na cidade , cometi um gesto impensável para uma jornalista. Deixei de comprar o ?New York Times? uma vez ou outra, leio on line e desconfio que o jornal passou a me irritar por tentar servir a essa tendência de popularidade.
Você tem razão, não há mais a fonte singular de notícias. Eu fiz uma experiência. Passei uma semana sem ler jornal e evitando TV e rádio. Não consegui ficar desinformado. Era só andar de metrô, usar o computador. Despejaram informação em mim, mas não informação relevante. Num futuro não muito distante, a informação vai ser como uma neblina, um miasma, quem sabe, em vez de máscaras de gás, nós vamos ter máscaras de informação para respirar?
Como é o choque de gerações provocado pela cultura digital?
A internet está criando uma estranha geração de jovens de meia-idade, que são padronizados, cautelosos e calculistas. Enquanto isso, os mais velhos, que não cresceram com esse meio, ainda amam os livros, o individualismo dos livros. Eles têm maior tolerância pelos erros. Maior tolerância pelas paixões e as idiossincrasias que são flagradas e ridicularizadas com tanta rapidez na internet. Essa tecnologia é quantificadora, motivada por comercialismo e está roubando a juventude dos jovens. Os defensores da internet não querem admitir isto, mas 80%, talvez 90% do tráfego da internet seja pornografia. A enorme propagação da pornografia pela internet está criando uma incapacidade de ter tesão. Está ficando cada vez mais complicado ter uma ereção. E a pornografia acaba influenciando tudo - é a gratificação instantânea. As pessoas se tornam objetos. Você acessa a internet porque quer alguma coisa, todo mundo quer alguma coisa. As coisas mais explícitas que estão lá do ponto de vista sexual são bastante destrutivas. Há os predadores tentando seduzir crianças. Pessoas que vão reviver os próprios traumas porque estão interagindo com fantasmas. Se não houvesse todo o anonimato, você não teria tanta pornografia - quem é que quer assistir a um filme pornográfico realista, identificar-se como espectador e identificar os personagens? Então o anonimato é um princípio da internet tanto quanto é um princípio da pornografia. Se você não sabe com quem está se relacionando, então não está se relacionando com ninguém. Está apenas projetando, criando um personagem baseado nas suas necessidades e neuroses. Há muita reencenação de trauma na internet, os psicólogos, afinal, estão estudando isso.
E o que é positivo nessa cultura de massa pela massa? Você acha que no jornalismo algo de bom esteja acontecendo como reação às pressões de popularização da internet?
No momento, não. Mas por causa da inquietação da cultura americana e, veja, não estou comentando sobre a cultura da internet em outros países, sujeita a outras variáveis, mas por causa da nossa inquietação, alguma forma de dissidência há de se tornar popular, simplesmente porque o mercado não descansa. Acredito que os adultos vão tomar a cultura das mãos da garotada ou parar de fingir que são os jovens que decidem o que a cultura deva ser. E há de haver alguma maturidade, alguma seriedade, e com isso quero dizer, por exemplo, teremos o riso e traquinagem, ao invés de sarcasmo e deboche, obsessão com popularidade para escola de segundo grau. O livre mercado, que eu defendo, e que é tão importante para a democracia, pode também ser uma calamidade para a cultura popular. Já que o valor dominante é a conveniência, os aspectos mais crassos da cultura são amplificados, tudo requer gratificação imediata. Eu penso sobre o fato de que nós, americanos, temos esses assassinos em massa que entram num local e matam um grande número de pessoas rapidamente. Você já notou que o mesmo dedo usado para double click no teclado é o dedo usado para apertar o gatilho? Como crítico cultural, o que mais me interessa são as vozes originais. E acho que a internet tem um potencial enorme para difundir talentos originais, seja porque não dependem de grandes estúdios de gravação, de grandes editoras, das corporações. Quando espaços não comerciais se protegem do barulho ensurdecedor da massa, vemos florescer muito talento. Sabe o que eu acho que vai acontecer de positivo? A própria internet vai ser usada para combater o lado negativo da internet. Estou esperançoso. A necessidade tipicamente americana de combater o status quo pode ser gratuita, mas pode também ser construtiva. Quem sabe vamos ver nascer a contracultura da internet, um movimento genuíno de dissidência?
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup133331,0.htm
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Como emburrecer americanos
Domingo, 2 de março de 2008
O Estado de São Paulo
NOVA YORK - "A mente deste país, ensinado a almejar objetivos baixos, consome a si mesma". Ralph Waldo Emerson fez esta observação em 1837, mas suas palavras ecoam como um doloroso pressentimento nos Estados Unidos muito diferentes de hoje. Os americanos estão em sérios apuros intelectuais - correndo o perigo de perderem nosso capital cultural, duramente conquistado, para uma mistura virulenta de antiintelectualismo, antirracionalismo e baixas expectativas.
Este é o último tema que qualquer candidato ousaria levantar no longo e sinuoso caminho até a Casa Branca. É quase impossível falar sobre de que forma a ignorância da população contribui para graves problemas nacionais sem ser rotulada de "elitista", um dos mais poderosos pejorativos que podem ser aplicados a alguém que está aspirando a um alto cargo público. Em vez disso, nossos políticos repetidamente garantem aos americanos que eles são apenas "pessoas comuns", um termo condescendente que você procurará em vão nos importantes discursos presidenciais antes de 1980. (Imagine: "Decidimos aqui que os mortos não terão morrido em vão ... e que esse governo das pessoas comuns, pelas pessoas comuns e para as pessoas comuns não perecerá da Terra"). Tais exaltações à mediocridade estão entre os traços que distinguem o antiintelectualismo em qualquer época.
A obra clássica sobre este assunto, de autoria do historiador da Columbia University Richard Hofstadter, Anti-Intellectualism in American Life (Antiintelectualismo na Vida Americana), foi publicada em 1963, entre as cruzadas anticomunistas da era McCarthy e as convulsões sociais do final da década de 1960. Hofstadter vê o antiintelectualismo americano como um fenômeno cíclico - que freqüentemente se manifestou como o lado negro dos impulsos democráticos do país em religião e educação. Mas o tipo de antiinlectualismo de hoje é menos um ciclo do que uma avalanche. Se Hofstadter (que morreu de leucemia em 1970 aos 54 anos) tivesse vivido o suficiente para escrever uma seqüência dos tempos modernos, teria concluído que nossa era de programas de TV que misturam notícia com matérias de entretenimento, sete dias por semana e 24 horas por dia, sobrepujaram suas previsões mais apocalípticas sobre o futuro da cultura americana.
A mediocridade, para parafrasear o falecido senador Daniel Patrick Moynihan, tem sido continuamente definida, em várias décadas, por uma combinação de forças até agora irresistíveis. Essas forças incluem o triunfo da cultura do vídeo sobre a cultura impressa (e por vídeo quero dizer qualquer tipo de mídia digital, assim como as mídias eletrônicas antigas); um descompasso entre o nível em elevação da educação formal dos americanos e seu domínio titubeante de geografia, ciências e história básicas; e a fusão do antirracionalismo com o antiintelectualismo.
Primeiro e acima de tudo, entre os vetores do novo antiintelectualismo, está o vídeo. O declínio da leitura de livros, jornais e revistas é agora uma história velha. A falta de leitura é mais acentuada entre os jovens, mas continua a se acelerar e a afligir americanos de todas as idades e níveis de instrução.
Segundo um relatório divulgado no ano passado pela National Endowment for Arts, o hábito da leitura decaiu não apenas entre as pessoas com baixos níveis de instrução. Em 1982, 82% das pessoas com curso superior liam romances e poemas por prazer; duas décadas mais tarde, essa porcentagem era de somente 67%. E mais de 40% dos americanos com menos de 44 anos não leu um único livro - de ficção ou não-ficção - no decorrer de um ano. A proporção de jovens de 17 anos que não lêem nada (a não ser o exigido pela escola) mais do que dobrou entre 1984 e 2004. Este período de tempo, é claro, abarca o surgimento dos computadores pessoais, a navegação na web e os jogos de vídeo.
Será que isso importa? Tecnófilos ridicularizam as lamúrias sobre o fim da cultura escrita como a auto-absorção de (quem mais?) os elitistas. No seu livro Everything Bad is Good For You: How Today?s Popular Culture Is Actually Making Us Smarter (Tudo que é Ruim é Bom para Você: Como a Cultura Popular de Hoje Está, na Verdade, nos Tornando mais Inteligentes), o escritor científico Steven Johnson nos assegura que não temos nada com o que nos preocupar. Certo, os pais podem ver seus "filhos vibrantes e ativos olhando, silenciosamente e boquiabertos, para uma tela". Mas estas características de zumbi "não são sinais de atrofia mental. São sinais de concentração". Tolice. A verdadeira questão é o que crianças pequenas estão deixando de fazer e não no que estão se concentrando, enquanto estão hipnotizados por vídeos que já viram dezenas de vezes.
A despeito de uma agressiva campanha de marketing que visa encorajar os bebês a partir dos seis meses a assistir vídeos, não há indícios de que se concentrar na tela seja ruim para crianças pequenas. Num estudo divulgado em agosto do ano passado, pesquisadores da Universidade de Washington concluíram que bebês com idade entre 8 e 16 meses reconheceram uma média de seis a oito palavras a cada hora gasta assistindo vídeos.
Não posso provar que ler durante horas numa casinha de brinquedo instalada em cima de uma árvore (era o que eu fazia quando tinha 13 anos) cria cidadãos mais informados do que ficar horas e horas jogando o Xbox da Microsoft ou obcecados com os perfis da comunidade virtual Facebook. Mas a incapacidade para se concentrar durante longos períodos de tempo - diferente das breves leituras para obter informações na Web - me parece intimamente relacionada com a incapacidade da população de lembrar-se até de eventos noticiosos recentes. Não é de espantar, por exemplo, que estejamos ouvindo menos da parte dos candidatos à presidência sobre a guerra no Iraque nos estágios mais recentes da campanha das primárias do que nos primeiros momentos - simplesmente porque tem havido menos reportagens em vídeo sobre a violência no Iraque. Os candidatos, como os eleitores, enfatizam as notícias mais recentes e não necessariamente as mais importantes.
Não é de espantar que anúncios políticos negativos funcionem. "Com texto, é até fácil manter um acompanhamento dos diferentes níveis de autoridade por trás das diferentes peças de informação", observou o crítico de cultura Caleb Crain recentemente na revista The New Yorker. "Por outro lado, a comparação entre duas reportagens em vídeo é consternadora. Obrigados a escolherem entre reportagens conflitantes na televisão, os telespectadores recorrem à intuição ou àquilo em que acreditavam antes de começar a assistir".
Na medida que os consumidores de vídeo se tornam progressivamente mais impacientes com o processo de adquirir informações por meio da língua escrita, todos os políticos se vêem fortemente pressionados a transmitir suas mensagens o mais rapidamente possível - e a rapidez hoje é muito mais célere do que costumava ser. Kiku Adatto, da Harvard University, descobriu que, entre 1968 e 1988, a média de trechos editados de notícias sobre um candidato à presidência - apresentando a voz do próprio candidato - caiu de 42,3 segundos para 9,8 segundos. De acordo com um outro estudo de Harvard, em 2000, essa fala diária por candidato foi de apenas 7,8 segundos.
A diminuição do espaço da atenção pública fomentada pelo vídeo está intimamente ligada à segunda força antiintelectual mais importante na cultura americana - a erosão do conhecimento geral.
As pessoas acostumadas a ouvirem seu presidente explicar escolhas políticas complicadas dizendo abruptamente "Sou eu quem decide" talvez não consigam imaginar o esforço de Franklin D. Roosevelt, nos sombrios meses após Pearl Harbor, para explicar porque as Forças Armadas dos Estados Unidos estavam sofrendo uma derrota após a outra no Pacífico. Em fevereiro de 1942, Roosevelt pediu aos americanos que abrissem um mapa durante seu programa de rádio para que pudessem entender melhor a geografia das batalhas. Os mapas se esgotaram nas lojas de todo o país, e cerca de 80% dos americanos ligavam o rádio para ouvir o presidente. FDR disse a seus redatores de discurso que estava certo que, se os americanos tinham entendido as imensas distâncias que os suprimentos tinham que percorrer para chegarem às Forças Armadas, "eles podem receber qualquer tipo de má notícia com bravura".
Este é um retrato não apenas de uma presidência e um presidente diferentes como também de um país e de cidadãos diferentes - um país que não tinha acesso aos mapas do Google mas era muito mais receptivo ao conhecimento e à complexidade que a população de hoje.
Segundo um levantamento de 2006 da National Geographic-Roper, quase metade dos americanos com idade entre 18 e 24 anos não acha necessário saber a localização de outros países nos quais importantes acontecimentos estão sendo objeto de notícia. Mais de um terço da população acha que "não tem nenhuma importância" saber uma língua estrangeira, e somente 14% consideram importante o conhecimento de línguas estrangeiras.
Isso nos conduz ao terceiro e último fator que está por trás do emburrecimento americano: o problema não é a falta de conhecimento em si, mas a arrogância em relação a essa falta de conhecimento. A questão não é apenas as coisas que não sabemos (considere o fato de que um em cada cinco americanos adultos pensa que o Sol gira em torno da Terra, segundo a National Science Foundation) - mas o alarmante número de americanos que, presunçosamente, concluem que não precisam saber tais coisas em primeiro lugar. Chame isso de antirracionalismo, uma síndrome particularmente perigosa para nossas instituições e intercâmbio de idéias. Não saber uma língua estrangeira nem a localização de um país importante é uma manifestação de ignorância; negar que tal conhecimento importa é puro antirracionalismo. A venenosa mistura de antirracionalismo com ignorância prejudica as discussões da política pública nos Estados Unidos sobre tópicos que vão desde assistência médica à tributação.
Não existe uma cura rápida para esta epidemia de antirracionalismo e antiintelectualismo arrogantes. Esforços repetidos para elevar as notas dos testes padronizados abarrotando os alunos com respostas específicas para perguntas específicas em testes específicos não adiantarão. Além disso, as pessoas que são exemplos do problema geralmente não o percebem. ("Pouquíssima gente acredita ser contra o pensamento e a cultura", observou Hofstadter.) Já está mais do que na hora de uma discussão nacional séria sobre se nós, como uma nação, valorizamos verdadeiramente o intelecto e a racionalidade. Se esta de fato se tornar uma "eleição de mudança", o baixo nível do discurso num país com uma mente ensinada a almejar objetivos baixos precisa ser o primeiro item da agenda de mudança.
* A premiada escritora americana Susan Jacoby é autora, entre outros, de The Age of American Unreason. É colaboradora dos principais jornais americanos e ingleses
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup133332,0.htm
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A Vaidade que limita
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Narcissus.(1597?) Oil on canvas. Palazzo Barberini, Rome, Italy
Caravaggio
A vaidade, assim como a amargura, pode nos limitar ao ponto da paralisia.
Quando focamos apenas a aparência - ou "aparências" - limitamos o nosso campo de percepção enormente.
O mito de Narciso - A origem da vaidade
- Narciso,Eco ( por Ovídio):
Tirésias, cuja grande fama se espalhara pelas cidades da Aônia, dava respostas infalíveis às pessoas que o consultavam.
A primeira a experimentar a veracidade de suas palavras foi a cerúlea Liriope, que outrora o Cefiso enlaçara nas curvas de seu curso, e, uma vez presa, a violentara.
Belíssima, engravidou-se e deu à luz um filho , já então digno de ser amado pelas ninfas,a quem chamou Narciso.
Consultando a seu respeito, se o menino viveria muito, se teria uma velhice prolongada, o adivinho respondeu: "Se não se conhecer".
Por muito tempo as palavras do áugure pareceram destituídas de sentido. Mostraram seu acerto a maneira com que se desenrolaram os acontecimentos, o modo como morreu Narciso e a estranheza de sua loucura.
O filho de Cefiso tinha, então, dezesseis anos, e podia ser tomado tanto por um menino como por um moço.
Muitos jovens e muitas jovens o desejam, mas - tanta tão rude soberba acompanhava suas formas delicadas nenhum jovem, nenhuma jovem o tocara. Quando olhava os trêmulos veados apanhados nas redes, a ninfa de voz sonora, que não responde pelo silêncio a quem lhe fala, e nem fala em primeiro lugar, a ressonante Eco, o viu.
Eco tinha, então, um corpo, não era voz apenas; no entanto, já era loquaz e usava da boca, como ainda hoje, para repetir a última de muitas palavras, como faz agora.
Juno foi a causadora, pois, quando tinha oportunidade, muitas vezes, de surpreender ninfas deitadas na montanha com seu Júpiter, a esperta Eco a detinha, conversando muito, enquanto as ninfas fugiam.
Percebendo tal coisa, disse a filha de Saturno: "Com essa língua, que tanto me fez ser iludida, pouco poderás fazer e terás um uso brevíssimo das palavras."E executa a ameaça: quando alguém acaba de falar, Eco só pode repetir o que ouviu. Então, quando ela viu Narciso andando sem destino pelos campos, e se apaixonou, seguiu-lhe os passos furtivamente; quanto mais o segue, mais se aquece ao calor da chama, do mesmo modo que o inflamável enxofre, com que se reveste a extremidade das tochas, se queima ao aproximar-se do fogo.
Quantas vezes ela quis aproximar-se, com palavras carinhosas, e dirigir-lhe ternas súplicas! Sua natureza a impede de falar em primeiro lugar. Permite-lhe, porém, e ela se dispõe a isso, esperar os sons e devolver-lhe as próprias palavras.
Por acaso, o adolescente, separado do grupo fiel de seus companheiros, perguntara:
"Aqui não há alguém?"
"Há alguém", respondera Eco.
Ele se admira, e olha em torno.
"Vem!", grita muito alto;
Eco repete o convite.
Ele olha para trás, e, não vendo ninguém aproximar-se, pergunta:
"Por que foges de mim?"E ouve as mesmas palavras que dissera.
Insiste,e, iludido pela voz que responde à sua, convida:
"Vem para junto de mim, unamo-nos!"
A nada Eco respondera com mais boa vontade: "Unamo-nos!"
Ajunta o gesto à palavra e, saindo da floresta, avança para abraçar o desejado.
Ele foge, e diz, ao fugir: "Afasta-te de mim, nada de abraços! Prefiro morrer, não me entrego a ti!"
Eco repetiu somente: "Me entrego a ti!"
Desdenhada, esconde-se na floresta e protege com flores o rosto corado de vergonha,e, desde então, vive naquelas grutas isoladas.Seu amor, no entanto, é perseverante, e cresce com a amargura da recusa.
As preocupações incansáveis consomem seu pobre corpo, a magreza lhe encolhe a pele, a própria essência do corpo se evapora no ar.
Sobrevivem, no entanto , a voz e os ossos.
A voz persiste; os ossos, dizem, assumiram o aspecto de pedra.
Assim, ela se esconde nas florestas, e não é vista nas montanhas. É ouvida por todos; é o som que ainda vive nela.
Assim Narciso decepcionara Eco e outras ninfas nascidas nas águas e nos montes, e, antes delas, outros jovens.
Despeitado, um deles ergueu as mãos para o céu, exclamando: "Que ele ame, por sua vez, e não possa possuir o objeto amado!"disse.
A deusa de Ramnonte atendeu a essa justa prece.
Havia uma fonte de água muito pura, brilhante e prateada, da qual jamais haviam se aproximado os pastores nem as cabras que pastavam na montanha, nem qualquer outro gado, que jamais fora perturbada por qualquer ave, por qualquer animal selvagem, por qualquer ramo caído de uma árvore.Era rodeada pela grama, que chegava até junto da água, e a floresta impedia que o sol esquentasse o lugar.
Ali, o adolescente, cansado pelo esforço da caça e pelo calor, estendeu-se no chão, a traído pelo aspecto do lugar e pela fonte.
Mas, logo que procura saciar a sede, uma outra sede surge dentro dele. Enquanto bebe, arrebatado pela imagem de sua beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de uma sombra. Fica extático diante de si mesmo, imóvel, o rosto parado, como se fosse uma estátua de mármore de Paros. Deitado no chão, contempla dois astros, seus olhos, os cabelos dignos de Baco e de Apolo, o rosto imberbe, o pescoço ebúrneo, a linda boca e o rubor que cobre a cútis branca como a neve. Admira tudo, pelo que é admirado ele próprio. Deseja a si mesmo, em sua ignorância, e, louvando, é a si mesmo que louva. Inspira a paixão que sente, e, ao mesmo tempo, acende e arde.
Quantas vezes beijou em vão a água enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço que via, mergulhou os braços na água, sem conseguir abraçar-se!
Não sabe o que vê; mas o que vê o inflama, e o mesmo erro que ilude seus o lhos lhe excita o desejo. Crédulo, o que consegues com esses vãos esforços? Não existe o que procuras. Afasta-te do que amas, e o verás desaparecer. Essa sombra que vês é o reflexo de tua imagem. Nada é por si mesma. Contigo, ela aparece e permanece; com tua partida desaparecerá, se tiveres a coragem de partires.
Nem os cuidados com a alimentação nem com o repouso, todavia, podem afastá-lo dali; estendido
na espessa relva, contempla, insaciável, a imagem mentirosa, e perde-se devido aos próprios olhos.
Erguendo-se um pouco, estende os braços para a floresta que o cerca. "Alguém, ó floresta, sentiu mais cruelmente o amor?", pergunta. "Vós os sabeis e, para muitos, fostes um oportuno refúgio.
Vós, cuja existência atravessou tantos séculos, lembrais, durante todo esse longo tempo, de alguém que tenha sofrido assim?
Estou apaixonado, e vejo, mas não posso alcançar o que vejo e me seduz; a tal ponto erro como amante. E, para agravo de minha dor, não nos separa nem o mar imenso, nem a distância, nem montanhas, nem muralhas com portas fechadas, mas uma simples camada de água. Ele próprio aspira a ser possuído, pois cada vez que beijamos a água cristalina, ele procura atingir com a sua a minha boca. Dir-se-ia que podes tocá-la, tão pequeno é o obstáculo que nos impede de amarmo-nos.
Sejas quem fores, vem! Por que me engans, jovem sem-par? Aonde vais quando te procuro? Certamente, não tenho uma aparência ou uma idade para te fazer fugir. As ninfas também me amaram. Em teu rosto amigo promete-mes não sei qual esperança, e quando te estendo os braços , estendes, por tua vez, os teus; quando sorrio, sorris; também muitas vezes vi correrem lágrimas dos teus olhos quando eu chorava; a uma inclinação de cabeça, respondias da mesma maneira;e, tanto quanto posso adivinhar pelos movimentos de tua linda boca, dizes-me palavras que não chegam aos meus ouvidos.
Somos o mesmo! Não me iludo mais com a minha imagem. É por mim que ardo de paixão e sinto e ateio ao mesmo tempo esse fogo. Que fazer? Ser rogado ou rogar? E o que, de agora em diante, poderei rogar? O que desejo está comigo; a riqueza me faz pobre. Oh! se eu pudesse separar-me do meu próprio corpo! Desejo desusado em um amante, queria estar separado do que amo! E já o sofrimento abate o meu vigor, não me resta muito mais tempo a viver e me extingo na flor da idade. A morte não me assusta, pois com a morte aliviarei o sofrimento. Para aquele que amo desejaria vivesse mais. Agora, exalaremos juntos o último suspiro."
Disse, e, com a razão perturbada, voltou à mesma contemplação. As lágrimas turvaram as águas e, no lago agitado, a imagem se tornou indistinta.
E, ao vê-la desfazer-se, ele gritou: "Para onde foges?Fica, não me abandones, cruel, eu que te amo! Que me seja permitido olhar o que não posso tocar e alimentar a minha triste loucura". Enquanto se lamenta, abre as vestes, desde o alto, e esmurra o peito nu com as mãos esculturais. Com as pancadas, o peito se tinge de vermelho, como acontece com as frutas, que, alvas em parte, em parte enrubescem, ou como, nos cachos variegados, a uva, ainda verde, se colore de púrpura. Quando o viu, na água cristalina de novo, não pôde suportar por mais tempo, mas, como costumam se derreter a loura cera ao leve calor do fogo ou o orvalho matinal ao morno sol, assim, esgotado pelo amor, ele definha, e um fogo secreto o consome, pouco a pouco.
Agora, sua cútis já não oferece a alvura misturada ao rubor; nem restam o vigor e o ânimo que seduziam os seus olhos; nada resta do corpo que outrora Eco havia amado. Essa, ao ver tal coisa, embora ainda ressentida com o agravo, apiedou-se, e todas as vezes que o infortunado adolescente exclamava "Ai!", ela repetia "Ai!" Quando as mãos lhe esmurram os braços, ela repetiu com sua voz o ruído das pancadas.
Foram as últimas palavras de Narciso com os olhos postos naquela água já tão conhecida: "Ah, querido em vão!", e o local devolve todas as palavras. E dizendo "Adeus!", responde Eco "Adeus!"
Ele repousa na verde relva a cabeça fatigada, e a noite fechou-lhe os olhos cheios de admiração pelo dono. E mesmo depois de ter sido recebido no inferno, ainda se olhava na água do Estige. As náiades, suas irmãs, choraram em altas vozes e depositaram os seus cabelos no túmulo do irmão; choraram as dríades; Eco repete os seus lamentos, e elas já preparavam a pira, as tochas e o féretro. Em lugar do corpo, acharam uma flor dourada, rodeada de folhas brancas.
Metamorfose de Narciso (1937)Salvador Dali 
Postado por Unknown às 11:28 0 comentários
A Leveza não se sustenta
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Women Running on the Beach. 1922. Oil on plywood. Musée Picasso, Paris, France
Pablo Picasso 
Porque preferimos relações "pesadas"?
Li nos últimos dias "A Insustentável Leveza do Ser" e poucas vezes aconteceu de uma leitura ser tão apropriada para um momento.
Escrevendode maneira simples Milan Kundera faz reflexões profundas e interessantes a respeito das nossas opções entre esses dois extremos durante a vida; o peso e a leveza nas relações humanas, mas não só,e nos surpreende quando nos faz encarar o fato de que muitas vezes optamos pelo que nos pesa.
Por uma necessidade, talvez (poucas vezes assumida) do que nos dê a impressão de maior realidade, como se nos mantivesse rente à terra.
Vale a pena a leitura se alguma vez já se surpreendeu com questionamentos assim.
Manao Tupapau or Spirit of the Dead Watching(1892) Oil on burlap mounted on canvas
Paul Gauguin 
Postado por Unknown às 08:04 0 comentários
Brasil sério e previsível.
quarta-feira, 30 de abril de 2008

Quem diria...Brasil é sério e previsível, segundo Mantega, na entrevista sobre o fato de que a Standard & Poor's , agência avaliadora de riscos para investimentos e resistente a avaliar o Brasil com melhor nível de classificação de risco de dívida,o Investment Grade, finalmente fê-lo hoje.
Antes do Brasil, Peru México e Chile já haviam obtido a mesma classificação.
Ok, em muitos setores o Brasil conquistou a duras penas uma estabilidade.
Mas o que ainda mais vemos mesmo é estagnação. Várias reformas que não andam, obras de infra-estrutura urgentes enroscadas na burocracia,(ou sabe-se lá em que mais).
Temo visto um certo esforço com as obras do PAC em ano de eleição.
Ontem senhor Lula fez uma delaração que me provocou uma risada divertida quando disse que se fizessem clima de campanha para seu palanque nas obras do P.A.C. só dificultariam o andamento das coisas.
Esse presidente é uma figura...
A minha impressão, falando de verdade, é que o Brasil tá sempre chegando depois; está chegando ao capitalismo numa época em que é urgentíssimo discutir as sua deficiências, sob pena do mundo não suportar o consumo cada vez mais crescente. O Brasil descobre petróleo quando o mundo deveria sim, discutir os bio-combustíveis.
E ainda temos que lidar com a tremenda "sacanagem' externa. Palavras de Lula.
Postado por Unknown às 14:33 0 comentários
Marcadores: brasil
Choque e maturidade depois de Isabella

Muito se evidenciou com a tragédia de Isabella.
Nossa polícia, mesmo sob extrema exposição, não conseguiu disfarçar a imaturidade, deixando à vista uma maneira de proceder que já faz a festa da defesa, essa também sob holofotes.
Mesmo a mídia mais séria não entendeu a comoção, não percebeu uma boa parte da população genuinamente angustiada,com sentimentos nobres de achar a verdade, presa na sua curiosidade pelo contraditório e não pela morbidade da história, como foi presumido por ser comum em casos assim.
A morte de crianças pelos próprios pais é um escândalo diário aqui, apesar de nossa idéia de família sagrada.Não conseguimos encarar seriamente o fato de que nem todo mundo deveria criar filhos; estamos convivendo com um grande enfoque na individualidade e pouca estrutura social, evidenciando desequilíbrios emocionais em vários níveis.
É impressionante a pouca atenção que damos culturalmente à saúde emocional e mental, ainda assim.
Postado por Unknown às 07:28 0 comentários
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So pra recordar....
terça-feira, 29 de abril de 2008
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Roda-viva
Chico Buarque
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar
Mais eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante; Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente até não poder resistir
No volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração
A roda da saia, a mulata, não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata, a roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva e carrega a viola pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração
O samba, a viola, a roseira um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva e carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração
Postado por Unknown às 09:18 0 comentários
O insatisfeito revolucionário e o conservador em todos nós.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
MAIO DE 68

Alemanha

Brasil

França

Estados Unidos
Todos temos dentro de nós um insatisfeito com quem detém o poder, todos temos um revolucionário revoltado que faria pelo menos melhor.
Seríamos mais justos, competentes,humanos.
Estamos prestes a completar 40 anos do chamado "maio de 68" quando milhares de jovens saíram às ruas querendo mudar o mundo.
Esse movimento adquiriu várias caras se adaptando às realidades diversas de vários países.
Como era o mundo em 68?
O comunismo ainda era uma grande promessa de mundo mais justo?
Ou eram várias as vozes unidas na insatisfação ?
Quais eram os milhares de pensamentos e idéias e como provocaram muito do que hoje chamamos de realidade?
O que herdamos de tudo o que houve, e o que podemos aprender da força que tem a insatisfação e impulso de mudança em qualquer nível, até pessoal?
A vida é feita de conservação e mudança que naturalmente se alternam.
Mas comumente se convertem em estagnação ou seu contrário, a total falta de compromisso com qualquer coisa, insatisfação crônica.
Como está o revolucionário e conservador dentro de você,duas energias tão vitais?
O que aprendemos olhando tudo aquilo com os olhos de hoje?
Folha de São Paulo
15/04/2008 - 17h56
Maio de 68 ainda divide franceses, 40 anos depois
Anne-Laure Mondesert, da France Presse em Paris
Formidável impulso de liberdade, ou símbolo da decadência e do relativismo: 40 anos depois do Maio de 68, essa revolta estudantil que agitou a sociedade francesa continua a provocar debates apaixonados, atiçados pela insistência do presidente da França Nicolas Sarkozy em "liquidar" sua herança.
O 40º aniversário dos acontecimentos de Maio de 68 é marcado, na França, por uma avalanche de publicações - mais de 100 livros se dedicam ao tema -, edições especiais de jornais e programas na TV, um sinal do interesse intacto por esse marco da história contemporânea do país.
Esse movimento estudantil, que se propagou por toda a sociedade e provocou uma greve geral que paralisou o país por um mês, alcançou a dimensão de um mito, opondo dois campos: "os guardiães do templo" e "os revanchistas", avalia o sociólogo Jean-Pierre Le Goff.
"A sociedade francesa oscila entre fascinação e rejeição, não consegue criar um distanciamento crítico, inserir o 68 na História", avalia o autor do livro "Mai 68, l'héritage impossible" ("Maio de 68, a herança impossível", ainda sem tradução em português).
Com suas barricadas no Quartier Latin, em Paris, faculdades ocupadas por estudantes e slogans libertários que se tornaram célebres, como "é proibido proibir", o evento de Maio de 68 é, regularmente, acusado pela direita francesa de ter causado a destruição dos valores morais e a falência do sistema educacional.
Quando era candidato, o agora presidente Nicolas Sarkozy fazia um apelo aos franceses, em abril de 2007, para "romper" com o "cinismo" do Maio de 68, que teria "acabado com a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o bonito e o feio". Os protestos foram imediatos na esquerda.
Os acontecimentos de Maio também serviram de estopim para evoluções que poucos pensam em questionar hoje. A sociedade francesa dos anos de 1960, sob o general De Gaulle, era uma sociedade "rígida, fechada", lembra o historiador Michel Winock.
Na época, as mulheres não podiam trabalhar de calça comprida, a pílula tinha acabado de ser autorizada, o divórcio por consenso mútuo não existia, os feriados pagos não eram para todos, e a censura vigorava, sobretudo na TV.
Para eles, Maio de 68 teve uma influência "mais do que positiva" na divisão de tarefas entre homens e mulheres (80%), na sexualidade (72%), ou na relação entre pais e filhos (64%).
Quarenta anos depois, os estudantes franceses ainda vão às ruas para se manifestar, mas a crítica radical ao sistema acontece por meio de combates mais pragmáticos.
"A juventude mudou muito em relação a 68. Suas condições de vida se degradaram muito; suas preocupações em relação ao futuro - com o desemprego - são maiores; o que explica as formas de engajamento mais materiais", analisa Jean-Baptiste Prévost, presidente do sindicato estudantil Unef.
Hoje, a sociedade "tem outros problemas", diferentes daqueles de 1968, resume o ex-líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, hoje deputado alemão.
No livro "Forget 68", esse homem ainda considerado por muitos como a encarnação do Movimento de Maio --e, por isso mesmo, onipresente no momento na mídia francesa--, pede que virem a página.
Nesse sentido, ele rejeita, com ironia, às críticas de Sarkozy. Para ele, o presidente de direita, que se divorciou duas vezes, é um "sessenta e oitentista", que retomou o slogan de 68 "gozar sem freios" para si mesmo.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u392427.shtml
Postado por Unknown às 09:46 0 comentários
A dignidade altiva de Isabella
sábado, 26 de abril de 2008

Amanhã teremos mais show e angústia na cobertura da reconstituição do crime.
Provavelmente a mídia se ocupará de descrever a tortura, a covardia, o terror dessa história.
Mas nem assim Isabella se transformou só numa menininha coitadinha ou tragicamente mal compreendida na peraltice.
Resolvi falar sobre um sentimento que provavelmente existiria em qualquer caso assim, mas é especialmente particular nesse; a incrível altivez na imagem dessa menina de seis anos.
Não se trata aqui de santificação em decorrência de uma morte trágica, longe disso.
Nem isso combina com a imagem que nos passaram de Isabella, incuindo aí os próprios acusados.
Me parece mais a imagem de uma menina que insistia corajosamente e quem sabe?....incomodativamente em existir e ser feliz em meio à insegurança e mesquinhez adultas.
Postado por Unknown às 07:53 0 comentários
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A Persistência da Memória.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
The Persistence of Memory.(1931) MoMA, New York - Oil on canvas Salvador Dali 
Há comentários diversos sobre esse quadro de Dali; sobre
esses relógios representando uma memória que persiste, mesmo que adquirindo
uma forma não fixa, maleável -como qualquer memória - já que traz
sempre com ela, emotividade.
Como a razão de qualquer pintura estar aqui é subjetiva, essa lembrança da nossa relação com a memória me desperta para o fato de que nem sempre é uma relação confortável.
Na memória das escolhas, uma certa angústia, sempre.
Se somos o resultado do que escolhemos ser, somos
também o resultado do que escolhemos não ser, ou desistimos de
ser.
Somos, também o resultado de nossas desistências.
Postado por Unknown às 08:30 0 comentários
Sobre negros brasileiros e americanos
quinta-feira, 24 de abril de 2008
estátua de Pixinguinha
Achei interessante registrar o ponto de vista de Julio Medaglia no Roda Viva sobre a negritude no Brasil sob a perspectiva musical e por consequência,cultural.
Não sei se vou saber reproduzir com fidelidade o que ele disse,mas comparando com o rap americano, agora mimetizado na periferia brasileira, o maestro disse que a inserção do negro na cultura musical e artística brasileira, aconteceu desde muito cedo,e que a figura do negro na música sempre foi majestática, charmosa, e ele não entende o negro brasileiro ultimamente querer se espelhar no negro americano na maneira de andar, vestir.
Citou figuras como Pixinguinha e Paulinho da Viola,(dos que eu me lembro).
Não dá pra negar que a história do negro nos E.U.A, levando ao enfrentamento, à politização,à reivindicação; produziu resultados muito diferentes do brasileiro; e que nem sempre o "charme negro", reverenciado aqui principalmente no carnaval,trouxe resultados concretos no dia a dia.
Mas que o negro brasileiro quando cheio de auto-estima, é muito mais interessante e charmoso que seu equivalente americano, não dá pra negar.
Postado por Unknown às 06:00 0 comentários
Saturno (Cronos) Tempo e Realidade
sábado, 19 de abril de 2008
passagem do tempo, 
Saturno(Cronos)
Outro dia vi uma explanação no café filosófico sobre religião, como uma necessidade de escapar do tempo. A idéia de tempo como esse ser que vence e desaparece com tudo, e desaparecerá não só com você, mas com todo o mundo que você conhece hoje.
Para exemplificar a ação do tempo,se retirássemos o homem da terra hoje, a natureza venceria tudo o que aí está e em algumas centenas de anos a terra voltaria a ser só florestas, rios e vida natural, com pouco sinal aparente de toda a civilização humana.Tudo o que aí está e é conhecido como realidade por você hoje pode ser vencido pelo tempo.
Por essa sensação ser tão assustadora, precisamos de valores que nos dão a sensação de vencê-lo, estamos sempre tentando alcançar o imutável.
As vezes conseguimos.
É quando temos a sensação de que "o tempo parou".
Ou, também,na sensação de lidar com o sagrado.
Perdoem minha cultura de almanaque (ou melhor, de televisão)....
Mas vi outro dia uma entrevista de um filóso, Luc Ferry, sobre o que ainda consideramos sagrado, pelo qual ainda daríamos a vida, ele dizendo que pelo menos na cultura ocidental, o que ainda nos resta de sagrado é a família, ou especificamente os filhos.Que poderíamos dizer que o homem ocidental, num âmbito geral, só consideraria sacrificar sua vida por um filho.
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM773771-7823-LUC+FERRY,00.html
Em situações em que preferimos nós à vida de um filho, o que resta??
Saturno em astrologia também representa a realidade. A realidade pode ser a nossa percepção do tempo que passa, mas num sentido mais amplo ela pode aparecer toda vez que o nosso "ideal" é atacado pela simples percepção de que o que resulta do ser humano na terra é muito pior do que gostamos de admitir.
Somos mais egoístas, mais competitivos, mais frios do que admitimos.
Na prática, nos preocupamos muito menos com a fome, a privação e tristeza alheia do que transparecemos.
Toda a vez que temos um "choque de realidade", em que nível seja, se se opondo ao nosso brilho individual, a essa idéia de que somos, de alguma maneira, especiais, essa sensação de um ambiente exterior muito mais cínico e cruel do que gostaríamos, estamos nos deparando com o tal Saturno, segundo a astrologia.
Postado por Unknown às 08:01 3 comentários
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