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Mar de Leite

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007



Como adorei o blog do Fernando Meireless sobre as filmagens de "Blindness" deixo aqui um trecho do livro de Saramago, só pra deixar um gostinho....

Esse é só um trecho do começo da história, que é sobre uma cegueira epidêmica, e o pavor que gera escancarando o terrível em todos nós.

"O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.



Ninguém o diria. Apreciados como neste momento é possível, apenas de relance, os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam contra o que julgavam ser um acidente de transito vulgar, farol partido, guarda-lamas amolgado, nada que justificasse a confusão, Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite.
Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados,
..."




O Valor do Amanhã.

terça-feira, 4 de setembro de 2007


"O Valor do Amanhã - Ensaio Sobre a Natureza dos Juros. " companhia das letras 2005, prêmio jabuti 2006.
Tenho ouvido falar a respeito desse livro há algum tempo.Vi entrevistas de Giannetti, sempre com bastante interesse. Na minha comemoração à volta de muitos livros na cabeceira da minha cama, esse, pretendo que esteja lá.

Assisti às entrevistas na fase de lançamento do livro, que agora gerou o programa no Fantático de mesmo nome; o que é ótimo.O Fantástico vinha apostando tempos atrás em muito de espetáculo e nada de reflexão, então, tem melhorado um cadinho nos últimos tempos. É evidente a influência de programas da globo em mentes brasileiras, então que aconteça, às vezes, um pequeno convite ao pensamento.

Giannetti é economista pela FEA/USP, formado em Ciências Sociais pelo FFLCH/USP e PhD pela Universidade de Cambridge. Já lecionou na FEA/USP e também em Cambridge. Atualmente, é professor do Ibmec-SP. Tem outros livros publicados como "Vícios privados, benefícios públicos?" e "As partes & o todo", ambos ganhadores do Prêmio Jabuti.

Aqui estão alguns trechos do livro:

“A liberdade de escolha desligada da capacitação para o seu exercício é uma expressão vazia. É a liberdade de um semi-analfabeto ler Joaquim Nabuco ou de um mendigo famélico para jantar fora. O minímo legal não basta.”

“ Os indivíduos perecem, mas a sociedade a que pertencem – obra aberta que une na mesma trama os valores dos mortos, dos vivos e que estão por vir – segue em frente. O passado condiciona; o presente desafia; o futuro interroga. Existem três formas básicas por meio das quais podemos preencher com o pensamento o vácuo interrogante do porvir. A previsão lida com o provável e responde à pergunta: o que será? A delimitação do campo do possível lida com o exequível e responde à pergunta: o que pode ser? É a expressão da vontade lida com o desejável e responde à pergunta: o que sonhamos ser?”

“Se o sonho desprovido de lógica é frívolo, a lógica desprovida de sonho é deserta”

“As horas mais felizes de nossas vidas são precisamente aquelas em que perdemos a noção da hora. O excesso de juízo carece de juízo.”

fonte: http://grifando.wordpress.com/2007/08/06/o-valor-do-amanha-eduardo-gianetti/

Comentário a respeito:
trecho:
' "O Valor do Amanhã" é, pois, uma fábula sobre as trocas intertemporais que fazemos ao longo de momentos e situações tão diferentes como o nascimento, a escolha da profissão, nossos relacionamentos, a conduta (de relativa) moral das sociedades em que nos inserimos, enfim, no fluxo do tempo que criamos como figura de linguagem e suporte para a realidade perceptível.
Culto, figurativo, instigante e até mesmo didático o texto nos leva por uma exposição linear que começa no momento em que organismos unicelulares descobrem a reprodução sexuada e vai até uma análise rápida sobre o grau de impaciência que faz sociedades prosperarem enquanto outras, afundam. Um ponto de destaque é, sem dúvida, os exemplos e figuras utilizadas para exemplificar os conceitos que, em outras vozes, soariam ácidos.'